quarta-feira, 31 de agosto de 2016

O começo do fim?




Eu nasci no ano da Lei da Anistia. Sempre gostei disso. Nasci num ano em que amigos, pais, filhos se reencontram, alguns depois de muitos anos, outros de muita dor física também.

Cresci achando, mesmo, que eu devia àquelas pessoas a oportunidade de viver num país que logo seria democrático. Radicais ou não, essas pessoas tinham o que o ser humano, em minha opinião, tem de melhor: o amor. Um amor tão grande pelo povo, uma empatia tão enorme pela miséria (que muitos deles nunca viveram), que os mobilizou a colocar a vida em risco, a viver sob a ameaça da tortura e do desaparecimento. A tortura meus amigos, tem natureza latente, a simples ameaça é concreta, não simbólica.

Vi Tancredo morrer, Sarney assumir. Vi um sem número de moedas e zeros cortados. Acompanhei as eleições de 1989 com o mesmo brilho nos olhos que tinha a minha mãe. Mulher guerreira lutadora, que embora não tenha sido presa, teve perdas sofridas causadas pela ditadura. Era a primeira eleição de um país democrático no qual eu cresceria com direitos políticos e liberdades individuais. Vi o Collor bloquear toda a grana que a minha família tinha. Os anos do meu pai em Angola, trabalhando em meio a guerra, em uma obra na qual volta e meia explodia uma mina. Vi o Collor sofrer um impeachment. Não entendia muito bem naquela época, por que razão uma figura como o Brizola, ou os amigos de esquerda da família viam com preocupação, a retirada do primeiro presidente eleito diretamente desde 1960, apesar de lamentarem o governo collorido.Vi FHC chegando, finalizando a estabilização econômica, privatizando recursos naturais e muita gente perdendo o emprego, muito mais do que agora.

Vi Lula chegar cheio de esperança, mas com discurso mais moderado. Propunha um desenvolvimento ancorado pela parceria com as empresas. O Brasil tinha, então 32 milhões de pessoas passando fome. Um índice de analfabetismo digno de países de descolonização tardia. Hoje, a moça que me atende na loja, usa aparelho e estuda. Vi uma mulher candidata. Essa mulher era uma daquelas que eu aprendi a admirar desde criança.  Vi essa mulher vencer uma eleição a despeito de toda a grosseria e machismo embutido nos argumentos contra ela. (Reparem o quanto os parlamentares usam a palavra “incompetência”, “irresponsabilidade”, termos não usados para falar de Lula, p. ex.). E a vejo agora se defender com a mesma coragem que sempre admirei 14h de absurdos.

Agora, ainda espantada e incrédula, vejo, não só a constituição, mas o capítulo mais bonito da nossa história, ainda que haja uma ou outra mácula, serem rasgados. Vejo um teatro tão óbvio que cansa. Talvez por Kafka já ter escrito um roteiro tão similar, talvez pela sensação de dejá-vu histórico. As poucas conquistas sociais que tivemos escorrem, agora, entre os dedos. Escorrem também os planos para o futuro. E o medo desse futuro parece uma onda havaiana me engolindo.

Nasci no ano em que se celebrava o retorno com alegria. Antes dos 40 vejo tudo retornando as trevas. Essas pessoas que chegavam e contavam suas histórias encheram meu imaginário de heroísmo para sempre. As crianças vibravam com He-man, eu também. E vibrava igualmente com as histórias de Helena Besserman Vianna, Inês Etienne, Dilma Roussef, Flávio Tavares, Luis Werneck de Castro, Lúcia Murat, e tantos outros. Pessoas que tiveram uma coragem que eu sempre achei que não teria.

Apesar dos destinos que o país seguirá agora, fico feliz de perceber que, vocês com sua histórias, abdicações e sacrifícios plantaram esse amor e essa coragem em mim. Não sei ainda se sou tão forte quanto vcs foram. Mas espero que essas gerações que vieram depois de vocês demonstrem agora, a mesma determinação, o mesmo amor por aquele outro que é desconhecido e cuja miséria nunca vivemos, que vocês nos ensinaram. ´


É triste esse momento, mais muito mais triste será ter que, no futuro, dizer aos meus alunos, que nós , também, “assistimos a tudo bestializados”.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Sobre jornalistas, pastores e rolas



Boechat é um dos poucos GRANDES jornalistas do Brasil. E no episódio Boechat 1 x Mala-faia 0, lavou a alma de muita gente... Mas precisava fechar daquela forma?

A polêmica da rola do Boechat ou do Malafaia, tanto faz, entupiu a minha linha do tempo e o meu tempo em si. Por isso resolvi escrever. Vamos lá:

Logo que a resposta do Boechat começou a ser compartilhada nas redes, senti-me incomodada. Aquela rola no final me incomodou muito!!! Incomodou, pois achei grosseiro e ponto. Por ser tão homofóbico/misógino quanto os discursos de Malafaia. Do pastor raivoso e intolerante eu espero uma grosseria assim, do jornalista esperava mais classe.

Quando se está numa discussão com alguém que grita, se destempera e fala palavrões... é fato: quanto mais calmo se é, quanto melhores os argumentos e a educação, mais as pessoas ouvirão e darão razão a quem se controla.

O que Boechat conseguiu, foi lavar a alma dos que já concordavam com ele. Mas aposto que, ao mandar o pastor procurar a rola, não convenceu nenhum fiel de que a tolerância vale à pena. Ao contrário.

Para defendê-lo um séquito de fãs que diziam: “Qualquer um se descontrolaria”, “foi dito sem pensar”... Espero, realmente, que o nobre jornalista não tenha pensado em dizer isso de antemão. Mas a sociedade não pode arcar com certos “descontroles”. Nesse sentido, a crítica a meu ver, é parte de um amadurecimento da tolerância.

Perdoar a falha por ele estar nervoso, “na hora da raiva”, é usar a mesma argumentação de que o marido matou a mulher, pois se descontrolou de ciúme, de amor. Matou por amar demais. Senhores, amor não mata, ou pelo menos não deveria.

É na hora da raiva, da irracionalidade que aparece o senso comum da sociedade que vive, mesmo que preso, dentro de nós. Todos aqueles preconceitos que racionalmente não temos, mas estão lá, arraigados nas categorias pelas quais enxergamos a realidade. É na hora da raiva que se chama o negro de macaco, que a mulher mau humorada é assim por ser mal comida, que o obeso é um “gordo safado”, que a mulher pobre vira “empregadinha”, que alguém se torna um “viadinho”, (que em geral é associado ao fato do gay ser feminino e portanto menos capaz).

Sendo assim a censura em prol do respeito à sociedade que queremos ser, se faz necessária. Precisamos evoluir até o ponto em que ser gay, negro, subempregado, etc. não “saiam” como xingamentos na hora do descontrole. Se na hora da raiva “saiu”, parafraseando a propaganda: “você precisa rever seus conceitos”.

Ninguém que criticou o Boechat, critica o discurso como um todo. Criticamos essa colocação (para manter o duplo sentido da coisa toda), é pontual. Se eu for preconceituosa em qualquer momento, por favor, critiquem! Assim como puxarei orelhas alheias pelo mesmo motivo.

Por último, para passar o atestado de machismo da nossa sociedade, muitas mulheres públicas já deram boas trauletadas na TV, no rádio, nas publicações virtuais ou impressas, contra esse fundamentalismo cristão. Mas talvez, por serem elas a dizer, não tenha o discurso (bem melhor argumentado) reverberado tanto por aí.

Ficamos assim, Boechat, eu continuo te ouvindo de manhã e respeitando como jornalista, mas na próxima oportunidade... deixa a rola de fora dessa.

Afinal, quem dera os problemas do mundo fossem tão facilmente resolvidos pela presença do falo masculino.


PS: Freud, valeu a tentativa, mas da rola, a gente só tem inveja na hora de fazer xixi em WC público mesmo...  

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Prova Final

Vejamos se agora, de posse dessas novas tecnologias, se ativamos de novo esse blog que anda morto. Agora que posso (e vocês também) escrever em qualquer lugar, quem sabe não dá para descobrir outras formas de usar esse espaço? 
Então... 1,2,3 testando...

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Mulheres, militância e participação política.



Quando se discute a América Latina no cotidiano, dois elementos saltam aos olhos. O primeiro é a forma longínqua com que os brasileiros tratam a região, ou seja, como se se tratasse de algum lugar difuso e distante do qual não fazem parte. O segundo é o corte temporal que se faz com relação às ditaduras que tomaram o continente nas décadas de 1960 e 1970.

Trabalhando com a cultura urbana atual em países da região como um todo, mas principalmente do Cone Sul, chocou-me o olhar estereotipado que temos de nossos vizinhos, bem como a falta total de informações sobre a história desses países tão próximos.

Nas escolas o espaço para se trabalhar América Latina na disciplina de História são apenas dois: as independências e as ditaduras. Com relação ao primeiro período tudo é ensinado com certa rapidez como se nos envergonhássemos de nossa opção monárquica enquanto a região optava por repúblicas. Com relação ao segundo momento, o conteúdo escolhido acaba sendo o da participação brasileira nos aparatos de repressão dos demais países do Cone Sul na denominada Operação Condor. Em ambos os casos optamos por não analisar as opções políticas que geraram no futuro uma cultura política na região, ou optamos por falar de nós, Brasil, esperando que o nosso imperialismo não transpareça.

MEMÓRIAS



A importância da construção e reconstrução da memória relativa aos períodos ditatoriais na América Latina tem diversas dimensões: política, social, pública, privada, psicológica, jurídica, etc. A necessidade dos mecanismos e dispositivos de reconciliação são amplamente e, cada vez mais, discutidos tanto no âmbito nacional quanto internacional, vide as decisões mais recentes relativas à ações movidas em organizações internacionais como a OEA.

Sem dúvidas o Brasil encontra-se mais “em dívida” com seu passado recente. Por um lado a insistência de muitos setores envolvidos na repressão em negar suas ações mais vis, o número de herdeiros dessa memória e de sobreviventes atuantes na busca pela verdade torna a questão ainda muito polarizada. Por outro lado, o caráter secreto de tantas decisões, a compartimentação das funções dentro do aparato repressivo que acarreta uma espécie de compartilhamento anulador de culpas e responsabilidades no âmbito do indivíduo, o luto não ultrapassado, enfim, torna a tônica dos discursos, de um lado e de outro, mais relacionada à esfera da paixão que da mera racionalidade política.

No entanto, por mais que muitas feridas sangrem novamente, antes de serem definitivamente cicatrizadas na história e na memória nacional é imprescindível que se faça a justiça e que a verdade sobre os fatos venha à tona.

Em grande parte, no Brasil e na Argentina o trabalho de construção dessa memória, de estabelecimento dos fatos e denúncias, coube às mulheres. Mães, filhas, irmãs, viúvas e, claro, sobreviventes. Algumas vezes, esses papéis se misturam. Misturam-se as dores e as vitórias. Num relato é possível observar a dor da perda de um companheiro, ao mesmo tempo em que se conquista a esperança ao descobrir-se mãe. Os relatos dessas mulheres e a confusão de sentimentos própria de momentos em que os limites humanos são postos à prova, são tanto a essência da memória desse período da mesma forma em que constituem, também, a razão principal da dificuldade em se punir os crimes ocorridos. Pois a desumanização que a tortura provoca pode ter fim com a inserção da verdade sobre o período no imaginário político do senso comum, ou seja da incorporação dessa memória e na sensação de justiça alcançada, portanto de legalidade. No entanto, é nesse mesmo momento em que o torturador se desumaniza definitivamente nos aspectos mais privados de sua vida. Enquanto aguardam por justiça, o constrangimento público tem sido umas das estratégias utilizadas pelos movimentos que lutam pela responsabilização por parte do Estado e punição dos criminosos desse período.



Sendo essa memória em grande parte feminina o tema ganha contornos específicos. Historicamente o espaço destinado às mulheres, muito raramente, vai além da esfera privada. Contar uma história, construir uma memória pública partindo de um lugar social acostumado e destinado à esfera privada já se mostra um desafio, mesmo ignorando os demais aspectos “delicados” e secretos que envolvem a construção de uma memória de caráter trágico e desumanizante.

Há a priori três gerações distintas de construção dessa memória que enfrentaram e viveram de forma diferente as relações sociais de gênero. As gerações de mães das militantes, a das militantes e a de suas filhas.  Embora as mulheres, ao longo dessas gerações, tenham conquistado muitos espaços, algumas questões permanecem as mesmas.

As mulheres tem ocupado cada vez mais o espaço público, inclusive em cargos de alto poder decisório como é o caso de Brasil e Argentina no momento. Mas até agora, essa inserção tem sido relativamente tímida, talvez também pela falta da construção dessa memória de forma objetiva e definitiva. No entanto muitas das mulheres que ocupam esses espaços públicos hoje é egressa das lutas contra as ditaduras da América Latina na segunda metade do século XX ou herdeira delas.

De um modo geral, é em função de conflitos violentos, que as mulheres encontraram brechas para uma maior atuação no espaço público. Em situações em que perdem temporária ou definitivamente seus provedores. Na América Latina não foi diferente, sendo ainda mais recente uma participação mais significativa.

À toda a problemática já citada, intrínseca à construção de uma memória social e política de períodos trágicos e traumáticos, soma-se o caráter de gênero que individualmente minou a legitimidade dos discursos e das denúncias por virem do lugar social ao qual está relacionada ao longo da história com categorias como maldade e loucura.

Desde tempos imemoriais os discursos femininos são reduzidos a um “não” controle das emoções, a uma “não” capacidade racional. Fosse sob a forma da “misoginia medieval” analisada por Luís Costa Lima, ou com relação muitas vezes aos papéis designados à maioria das mulheres dentro das organizações de combate à ditadura. Recorre-se ou à infantilização das mulheres, ou à tentativa de atribuir suas ações ou palavras ao âmbito da loucura, da histeria, do “exagero”. Isso, naturalmente se dá, igualmente, quanto ao teor de seus relatos históricos. “Esta senhora enlouqueceu.” Ou “Larga essa vida de militância política, menina, você nem sabe onde foi se meter”.

No caso das ditaduras latino americanas a inserção feminina no espaço público tem a marca da violência e do fascínio. Vistas como heroínas por uns, como aberrações por outros o fascínio é corrente. Na época dos fatos, sua condição feminina horrorizava ainda mais os homens da repressão. Eram duplamente culpadas: por serem comunistas desafiando o poder estatal instituído, e por serem mulheres que, ao escolherem o caminho da luta política, rompem com os papéis sociais preestabelecidos e, portanto, com a ordem. Fascinam e amedrontam o que faz aumentar, diversas vezes a violência principalmente quando se mostraram capazes de resistir. Com relação à violência, foram torturadas por homens e, assim, as humilhações e torturas de cunho sexual foram mais correntes do que com relação aos presos do sexo masculino.

Naturalmente que pelos diversos depoimentos dos sobreviventes sabemos que os homens também passaram por violações sexuais, no entanto há menos registros da tortura sexual entre os interrogatórios do que no caso das mulheres. As presas mulheres tinham seu corpo utilizado pelos homens que compunham o aparato repressivo, também nos momentos de folga, como fonte de diversão e relaxamento.

O papel social feminino navega ao longo dos períodos históricos por mares de ambiguidades: a santa e a louca, a bruxa e a criatura infantil e vulnerável, a mulher e a militante. No entanto a capacidade de resistência, de convicção política, e de luta femininas, acabava por retirá-las aos olhos de diversos segmentos sociais da “categoria feminina”. São comuns os depoimentos de mulheres que aderiram à luta armada, de ouvirem de soldados e de torturadores que eram “sapatões”.

 Também possui dupla dimensão as experiências da prisão e da clandestinidade. A mulher enquanto clandestina tem vantagens justamente em função do entendimento de que mulheres oferecem menos riscos. Uma casa em que more uma mulher que quase não sai, é a casa de uma moça trabalhadora ou recatada. Um homem chamaria mais atenção. Um jovem casal também desperta menos suspeitas. Não raro as mulheres nas ações cumpriam o papel de falsas namoradas exatamente com esse fim.

Por outro lado a situação feminina nos “porões” de tortura acaba assumindo outro teor de degradação e humilhação que reside no fato mesmo de serem mulheres, As mulheres transgridem duplamente e isso se faz presente na prisão. São punidas e torturadas não só pelas informações que podem fornecer ou pela ameaça que representam à estabilidade do sistema com suas ações subversivas, como também pelo fato de terem ignorado o papel social previamente delineado para o gênero feminino restrito à esfera privada.

Uma vez que ao longo da história a mulher esteve restrita ao universo da casa e da família, aquela que opta por um carreira diferente e uma maior participação política enfrenta preconceitos dentro e fora das organizações de resistência, armada ou não, da qual participaram. Ao contrário dos homens, como já foi dito, elas transgridem duplamente e por isso significam uma ameaça à estabilidade política e cotidiana.


Concluímos, assim, que a questão de gênero está intimamente ligada à dificuldade de se estabelecer a verdade dos fatos sobre os anos de chumbo no Brasil. Além do desejo das Forças Armadas em manter suas ações mais vis ocultas, uma vez que grande parte dessa memória é feminina, torna-se mais fácil deslegitimar o discurso. Por outro lado a supressão dessas verdades constitui, também, uma barreira à participação política feminina nos dias de hoje. Muito embora três das maiores economias da região possuam hoje presidentas (Cristina Kirchner – Arg, Dilma Roussef – Br e Michelle Bachelet – Chile), há ainda um déficit muito grande de participação política nesses países. Pois quando não há memória também não há trajetórias heroicas que inspirem, não há cultura política.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Com a palavra: De onde veio a Sociologia?

A Sociologia surgiu de fato de uma série de transformações na sociedade e, principalmente, na concepção do próprio homem em relação a ela.
   A ideia de sociologia se forma a partir do ponto em que um ser passa a examinar como outros seres, ou ele mesmo, se interagem, mas não como um todo, e sim, como um individuo. A ideia de individuo começa a se formar quando o homem passa a pensar como um ser único e diferente em relação a um grupo ou sociedade. Ele passa a comparar, estudar e entender as relações sociais.
     Com a Revolução Industrial e a ascensão do capitalismo, o homem passa a pensar muito mais nele mesmo do que no todo. O topo da pirâmide fica cada vez menor e a base cada vez maior. O homem moderno se vê cada vez mais explorado, isso o leva a indagar o que é correto, o que é justo. Iniciam-se as primeiras ideias acerca dos direitos básicos a todo homem e no direito a liberdade.

     A observação do comportamento, da interação entre os homens começa a ser feita. A indagação do que é certo começa a ser frequente. Começa assim a nascer a Sociologia.

Por: Pablo Accioly

quarta-feira, 5 de março de 2014

A História oficial e a apatia nacional ou Passado o carnaval, imagina na Copa




Quarta-feira de cinzas taí. Trazendo lágrimas para alguns, uma alegria infindável para outros, o ano começou. E se não desejamos só reclamar por mais 4 anos, ou depois que os supostos dólares da Copa vazarem pelas fronteiras, é hora de arregaçar as mangas! 

Em épocas de eleição mesmo aqueles que nunca pensam sobre a política nacional tornam-se militantes, da mesma forma que se tornam ufanistas em tempos de Copa do Mundo...  Bom, pelo menos em algum momento essa inércia - que a mim, me lembra mesmo é um monstro medieval de 8 braços imobilizando a nação - é vencida, mesmo que temporariamente.

Com isso escutamos e lemos por aí uma série de confusões conceituais construídas sobre raciocínios e leituras tortuosas da realidade, bastante condizentes como o ensino de nossa história pelo qual a elite brasileira optou durante tantos anos não democráticos.

Em primeiro lugar, de um modo mais amplo, sofremos de uma apatia parasitária. Assistimos a todas as decisões tomadas no país, decisões que terão reflexos diretos nas nossas possibilidades de vida, no nosso cotidiano... E, porque não, nos nossos sonhos? O máximo que fazemos é reclamar da vida, dos políticos, da roubalheira, com o S. Zé da padaria, o Antônio jornaleiro ou aquele taxista que você pegou na “Hora do Brasil”. Somos roubados todos os dias e não fazemos nada... nunca.

Porque será que quase ninguém no Brasil considera interessante a sua própria História. Mesmo aqueles que dizem gostar, volta e meia, fazem uma ressalva com relação a disciplina, à própria trajetória enquanto sociedade, população e até mesmo indivíduo?

Por muitos anos, enquanto houve ditaduras no Brasil, optou-se por ensinar História Brasileira sob o prisma da passividade e alegria como principais características da nação. Somos alegres, claro! Mas será que sempre fomos tão passivos assim? Ou será que essa apatia e descrença todas são fruto de falta de prática cidadã, e de uma noção deturpada de suas lutas e conquistas ao longo da História. 



As guerras indígenas que aconteciam aqui quando chegaram os portugueses, e que contribuíram, direta e indiretamente, para nossa exploração não recebe o mesmo destaque nos conteúdos programáticos escolares, que recebe o viés de relação de cooperação das tribos e dos jesuítas ou bandeirantes.



Será mesmo que D. João VI era tão bobão assim? Em primeiro lugar, ele não seria rei. Foi coroado, pois seu irmão, o primogênito D. José, que a vida toda foi treinado para assumir o trono, tinha a saúde frágil e faleceu ainda jovem. Quando pressionado pelo avanço de Napoleão, finalmente, utilizou o plano de evasão da Corte que estava engavetado há tempos e já fora cogitado em outras situações de crise.  Uma excelente manobra que lhe permitiu resguardar o poder em Portugal e no Brasil. Não acho que tenha sido um covarde, ao contrário teve a coragem que nenhum rei português tinha tido, até então.



Os quilombos são ensinados como se os negros fugissem para viver numa dimensão paralela, uma “reprodução da vida tribal africana”. Mas o que é isso?! Nossos negros, barbaramente importados, também eram os mais covardes da África (como eram os portugueses em relação à Europa, para nós)?  Juro que uma vez vi uma futura professora apresentar uma aula colocando no quadro: “Formas Passivas de Resistência Escrava”. Resistência até pode ser pacífica, não acho que tenha sido esse o caso, mas pode acontecer. Se é resistência, é ativa, não passiva! Mas é isso que aprendemos por aí, numa sala de professores ninguém pareceu notar a incongruência das idéias. Seguiram todos pacificamente concordando.



Além disso, temas como a Revolta dos Malês, Revolta da Chibata, Manoel Congo, Zumbi, etc. são praticamente ignorados. Você conhece todos, ou alguns? Diversos levantes e movimentos populares/ sociais são dignos de maior status. De “brainstorm”: Guerra dos Farrapos, a Revolução Constitucionalista, A Coluna Prestes, A Revolução de Natal, A Guerra do Araguaia, Canudos. 

Acabo de ler o livro Mata! O major Curió e as guerrilhas no Araguaia do jornalista Leonêncio Nossa. E se algo me chamou atenção nessa longa e detalhada obra é, justamente, a memória de luta da população. De um lado ou de outro da oficialidade a maioria dessas pessoas possui um antepassado revolucionário ou militar condecorado em função dos conflitos locais. Da Cabanagem à guerrilha todas as famílias traziam viva essa memória. 

Quando surge na nossa História contemporânea um período de conquistas sociais necessariamente trata-se do tal “populismo”. É sempre um governo assistencialista que se utilizou de manobras para conseguir maior apoio popular. Os trabalhadores urbanos ou rurais, a sociedade, o povo mais organizado ao longo do tempo, não tiveram qualquer participação em nenhuma conquista.

E pior, a classe política especializa-se em “pais de leis”. Todo mundo quer ser autor de projetos postos em prática. Por causa dessa tal “paternidade legislativa/administrativa”, excelentes projetos são interrompidos.

Quando um escândalo nacional como o do Collor chega à imprensa, isso já é sinal de avanço, se pensarmos que pouco antes, esses mesmos jornais sofriam censura. Mais ainda, se diante do fato, milhões de brasileiros se reúnem em todo o Brasil, vestindo preto, num domingo de sol desse país tropical, para exigir a saída do primeiro presidente eleito depois de mais de 20 anos. Se a legitimidade de Collor advinha da forma democrática com que fora eleito, porque não democratizar também as pressões para sua saída? Será que foi só a Globo que tirou o Collor do poder? Milhões de brasileiros nas ruas não fizeram a menor diferença?  Nenhuma? 



Bem, essa não é a minha História

Será que se tivéssemos ficado em casa apenas ouvindo o Cid Moreira falar, com a mesma apatia a que ouvimos o Bonner hoje, o CN se sentiria tão livre para não cassar determinados políticos, não tomar determinadas decisões ou tomar outras?  Será que o dinheiro que os cofres públicos deveriam acumular evaporariam assim?

As Jornadas de Junho que perduram, ainda que um tanto quanto trôpega e amedrontada, até hoje, nos mostraram que o projeto funciona. Esconder as convulsões sociais para debaixo do tapete e criar uma cultura do "sim senhor" disfarçada de um orgulho do pacifismo nacional faz com que qualquer ato de desobediência civil seja visto como precedente perigoso. O fato de se discordar de algumas estratégias de luta não deve ser utilizado sistematicamente para deslegitimar demandas sociais justas. Mas quando um povo não conhece seu passado, não tem memória, torna-se facilmente manipulável. 

No meu país existiu um povo forte, que tinha capacidade real de se indignar. Que conseguia se organizar. Mesmo que algumas vezes equivocadas, meu país tem pessoas de valor que lutaram e morreram por ideais de nação. Por sonhos comuns, fossem quais fossem... Mas que depois de muito tempo repetindo outra versão dos fatos, desconheceu seu valor, passou a ignorar sua força, seus direitos, suas obrigações, e até mesmo seus sonhos, suas utopias.

E o que é um povo sem utopias?  É essa massa amorfa e barulhenta, que acredita que não tem “DNA histórico” para se transformar em outra coisa. Que não sabe o que é. De que é feito. Ou para que serve.  Que no máximo consegue se repartir em milhões de umbigos ocupados reclamando sem parar, e sem se ouvir. Esse é o monstro criado quando a História só é vista de cima para baixo. E feliz 2014!



quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Com a palavra: Apesar de caminhos


Pela rua caminho
sem saber para onde vou
Pela rua caminho
sem saber onde estou

Procurando respostas e perguntas
Pela rua caminho
Apenas querendo saber,
quem sou?

Na beleza da noite me inspiro
na luz de um poste, em um banco de praça
e me vejo como a lata de lixo que sou

E apesar de caminhos,
sem pensar
para onde vou
me pergunto

Por Gabriel Romero
Foto Rodrigo Carvalho